quinta-feira, 12 de novembro de 2009

É preciso aprender a viajar


Cairo tem muito mais a oferecer além das Pirâmides -
Eu e amigos em qualquer ruela do Cairo Islâmico

"If you wish to travel far and fast, travel light. Take off all your envies, jealousies, unforgiveness, selfishness and fears."
- Glenn Clark

É preciso aprender a viajar

Muitos devem estar pensando algo como “quem é esse cara... que pretensioso querer ensinar a viajar”! Calma pessoal, não quero dar nenhuma lição aqui, afinal cada um viaja como melhor lhe convém! Mas confesso: não consigo ver gente subaproveitando as viagens (como eu já mal aproveitei algumas), é por isso que escrevo sobre esse tópico.
Como diria Allain de Botton, “as viagens expressam como poderia ser a vida fora das restrições do trabalho e da busca pela sobrevivência”.
Viajar é uma arte! Portanto há arte e estilos de viajar para todos os gostos. Generalizações nunca refletem 100% da realidade, mas é engraçado constatar que: japoneses viajam para ver os lugares através do monitor das câmeras; australianos viajam para beber com outros australianos em lugares estranhos; americanos viajam para experimentar resorts iguais em lugares diferentes... enfim, são incontáveis os estereótipos de turistas, mas nenhum rótulo me deixa mais indignado que a falta de contato com as pessoas. A indiferença.
O turismo dos dias de hoje é indiferente! E indiferença é sinônimo de falta de paixão. Uma decolagem aqui, um pouso lá, um teto diferente, ruas, prédios, lojas e placas diferentes, muita caminhada e uma foto do estilo “eu e a torre Eiffel” para provar que esteve em Paris (e colocar numa rede de relacionamento para deixar o amigo com inveja). Se esta é a sua arte de viajar, ok... eu respeito, mas não deixarei de mostrar que viajar pode ser muito mais do que isso.
Antes de viajar, esvazie a sua cabeça. Deixe em casa seus preconceitos, medos, invejas e egoísmos. Viajar com a cabeça cheia é tão difícil quanto procurar um hostel com a mochila excessivamente pesada. Não se esqueça: você pode ser quem você quiser!
Fale, pergunte, discuta... seja curioso! Puxe papo com o vendedor da feira, faça couch surfing, converse com a garçonete... conheça as pessoas, seus problemas e seus pontos de vista. Essas pessoas te apresentarão um mundo novo! Porque viajar é ter coragem para abandonar o que já não serve mais. Viajar é exercitar o desapego...
Não esqueça que além de absorver, é preciso ensinar. Exponha as suas ideias com diplomacia, afinal você é o representante do seu país. Tenha responsabilidade: 200 milhões de brasileiros são espelhados em você. Não explore as pessoas, respeite-as! Não tenha pena, ajude-as. Ajudar não é difícil: apenas um olhar ou um sorriso podem fazer toda a diferença. Aliás, o sorriso tem um poder inacreditável – utilize-o com sinceridade... é muito desagradável ver alguém mostrando os dentes para tirar uma foto e logo depois fechando a cara até chegar ao próximo monumento.
É nesse sentido que o tempo torna-se um fator primordial. Quando dizia nos primeiros posts que é complicado viajar com pouco tempo, estava a referir a essa falta de contato, a falta de profundidade das viagens rápidas. Os viajantes pobres de tempo querem ver suas expectativas preenchidas e viram escravos das mesmas. Essas pessoas conseguem ver muitos lugares interessantes, paisagens inesquecíveis, mas infelizmente ficam limitados a relações superficiais e raramente têm contato com a população local e poucas vezes aprendem algo além do banal. O ápice da viagem dessas pessoas é o sentimento de “uau, cheguei até aqui” ou “que lugar incrível”! É como se pudessem enxergar apenas uma dimensão!
Saiba explorar todas as dimensões e aprenda a reconhecer a sua dimensão favorita. Cuidado ao limitar as dimensões... não planeje demais. Eu disse não-planeje-demais! Seja flexível e permita o inesperado acontecer. Foi o inesperado que mais me ensinou que não existe aprendizado excepcional sem riscos. Um bom viajante sabe medir e assumir riscos.
Enfim... aprenda que viajar é uma arte. Viajar é conhecer lugares, pessoas, ideias e principalmente a você mesmo! Viajar é aprender e ensinar.

3 comentários:

Káren Dalla Costa disse...

É, Mike, diferente de conhecer lugares, vc conheceu pessoas, costumes, tradiçoes. É maravilhoso viajar de forma independente pois assim é possível ter tempo para conversas casuais, despretenciosas. Este é o espírito! Valeu!

fucim disse...

Tenho me esforçado para entender tudo que Mike tem escrito em seus blogs e também em chats quando conversamos. Eu sou marinheiro de primeira viagem e tenho sido abeçoado com suas palavras de motivação e sustentação. Mais uma vez rico em detalhes e cheio de sabedoria. Preciosas palavras. Acredito que isso é uma direção para todos aqueles que buscam tirar uma simples "férias". O principal ponto aqui é o relacionamento e sinceramente, é isso mesmo. Precisamos de contato. Dependemos uns dos outros. É isso... Sábias palavras Mike. Obrigado pela sua experiência e principalmente por você se dispor a colocar seus pensamento sem se preocupar se concordam ou não de você.

Shalom!

Mônica disse...

Adorei seu post! Concordo muito com suas palavras.